13/06/2009

Macacos Sentem Remorso

Pesquisadores descobrem que animais se arrependem de alguns comportamentos e planejam acertos para o futuro

Depressão. A tristeza pela perda de uma recompensa é fruto de imensa atividade neurológica

Há um ditado que diz: é errando que se aprende. Pelo menos no campo da experimentação científica, no qual se comemora o acerto mas não se lamenta o insucesso que ensina, essa máxima funciona - as escolhas equivocadas e as oportunidades perdidas podem ser processadas pelo cérebro como base para positivas decisões futuras. Na semana passada, pesquisadores americanos da Universidade de Duke anunciaram que essa característica não é um privilégio do homem. Também os macacos aprendem com as escolhas erradas.

Os cientistas submeteram um grupo de animais ao seguinte teste: eles tinham de escolher, entre objetos iguais, aquele que lhes resultaria na melhor recompensa. Diante deles foram depositados oito cubos idênticos, todos brancos. Quando os macacos selecionavam um cubo, os outros acendiam, revelavam a sua cor verdadeira e o prêmio correspondente. Os bichos aprenderam rapidamente a associar o prêmio de que mais gostavam (suco) à cor verde e o prêmio de menor significância (água) às demais cores.

A reação cerebral das cobaias foi rigorosamente monitorada pelos pesquisadores por meio de ressonância magnética em diversas situações: quando "ganhavam" o suco, quando o "perdiam" e quando "invejavam" o companheiro bem-sucedido. A pesquisa mostrou imensa atividade dos neurônios no córtex cingular anterior (ACC), mesma região cerebral que é responsável pelos processos de pensamentos imaginativos desenvolvidos por uma pessoa quando ela se arrepende de determinada decisão - esse processo de imaginação está ligado à capacidade de fantasiar para sublimar (tolerar) uma frustração e não agir impulsivamente. Quantas vezes não falamos para nós mesmos: "da próxima vez vai dar certo"? "Da próxima vez agirei diferente"?

Costumamos experimentar essa sensação de frustração e remorso quando nos damos conta de "consequências", ou seja, de que poderia ter acontecido algo bom (ou, pelo menos, não acontecido nada) se tivéssemos tomado uma decisão diversa da que tomamos diante de determinado estímulo. Processo semelhante ocorre nos macacos: os seus neurônios acusavam o golpe da recompensa perdida (o que os especialistas em psicologia animal nos EUA estão chamando de frustração ou remorso).

Em idêntico processo cerebral, ficou demonstrado aquilo que "sentiam" quando alcançavam a melhor recompensa. Com base nisso percebeu- se que as escolhas feitas pelos macacos não eram aleatórias. "O ponto mais importante é que eles aprenderam não apenas com os erros, mas também projetando o que teria acontecido se agissem de maneira diferente", disse à ISTOÉ o pesquisador americano Ben Hayden, principal autor do estudo.

Quando um macaco ganhava a melhor recompensa (suco), os seus neurônios tinham uma reação intensa, e essa mesma área do cérebro respondia quando ele perdia. "Os macacos não têm a consciência do remorso, mas o comportamento deles demonstra que são capazes de entender o que poderia ocorrer se selecionassem outro cubo, ou seja, se tivessem feito outra opção. E isso é essencial para o arrependimento", diz Hayden.

Embora o cérebro dos macacos atue da mesma maneira que o dos humanos arrependidos, os biólogos ainda preferem ser cautelosos quando se cotejam as duas espécies. "É preciso ter cuidado porque nós projetamos sentimentos humanos em animais. Eles não têm condições de refletir nem de avaliar aquilo que estão sentindo", disse à ISTOÉ Mauro Lantzman, veterinário e professor de psicobiologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

"Os macacos não têm consciência do remorso, mas percebem que erraram. Isso é arrependimento".[Ben Hayden, cientista dos EUA].

Fonte: ISTOÉ - Independente

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