04/04/2009

O Pai-Líder

"É preciso incentivar e deixar o filho confiante, para que faça o seu melhor"

Muito se fala em liderança, mas quem é o verdadeiro líder? Como identificar um líder, no meio da multidão? Quem é os líder da sua empresa, rede ou comunidade?

A resposta é: depende do que você chama de líder.

Se você considera "líder" quem alcança um grande destaque em sua área ou que está na frente dos outros, é fácil. Você está falando do líder-estrela, aquele que brilha no céu para todos verem. Essa pessoa é líder porque é determinado e competente. Ela têm um valor inquestionável em sua profissão, mas nem sempre entende da arte de liderar.

Por outro lado, se você se refere a "líder" como sendo uma pessoa capaz de extrair o máximo potencial de seus colaboradores, mobilizar, desenvolver talentos e liderar equipes vitoriosas, não olhe para o céu. O pai-líder se reserva. Ele pode até brilhar mais que o Sol, mas já cansou de iluminar os outros. Ele mantém seu brilho próprio controlado, sob o manto opaco da humildade, pois sabe que o céu é para estrelas.

O pai-líder já foi estrela um dia, mas agora o seu papel é ensinar. Ajudar que outras pessoas descubram esse poder interior e desenvolvam o melhor de si, aprendendo a brilhar bem alto no céu. O pai-líder é um grande formador.

Na prática, todo líder-estrela é um filho-estrela, embora nem todos estejam prontos para aceitar isso. Logo que aprende a brilhar, o filho-estrela ilumina o cosmo. Sua luz é mais intensa que as demais estrelas. Durante uma fase, ele renega o pai, pois acredita que sabe mais e pode ir além do que os seus ensinamentos. É quando vira um líder-estrela, de brilho próprio e sem passado. Ele sabe tudo, é melhor que os outros e experimenta o céu.

Por isso, quando o líder-estrela diz bobagens, o pai não liga. Ele sabe que é sempre assim.

Um dia, quando a maturidade chega, o líder-estrela percebe que tanto brilho cansa. Por mais que ele se esforce, novas estrelas dividem com ele o céu, e o brilho individual já não faz diferença. É quando ele entende o seu papel. Ele percebe que brilhar demais é bom, mas não traz a realização que sempre quis. Vida de estrela é vazia de significado.

Então, ele se lembra do pai-líder e se arrepende do que fez. Ele volta a ser um filho-estrela, pede perdão e novos conselhos ao pai.

Estamos falando em imposição e conquista, palavra e exemplo. Estamos falando em humildade, centralizar ou delegar poderes. E estamos falando em individual e coletivo.

Quem é o verdadeiro líder? Por que o filho-estrela volta e pede conselhos?

A formação de um líder

Após dez anos convivendo com treinadores de vendas em todo o Brasil, entendi que a liderança é um aprendizado de várias fases. Ninguém é um bom pai sem ter experimentado o estrelato algum dia. A real humildade do pai-líder só se adquire após alguns tombos de quem já esteve no céu.

Entretanto, a magia que envolve todo esse processo está diretamente ligada à forma como o pai se posiciona em relação ao filho. Ele sabe a hora de brilhar? Ele deixa o filho experimentar o céu e viver seu próprio reinado enquanto jovem?

Quando o pai impõe seu brilho e centraliza demais o poder, impede que o filho sinta o prazer de brilhar. E se o filho não ilumina todo o céu na hora certa, se limita ou se rebela.

O filho que nunca sai da sombra, desenvolve as características de um satélite, orbitando em volta do pai-líder pelo resto da vida. Ao invés de desenvolver a própria luz, ele se acanha, tímido, amedrontado e dependente.

Por outro lado, o filho que se rebela, cria transtornos e chama a atenção de qualquer jeito, descarregando suas frustrações no universo. Ao invés de tornar-se uma estrela, vira um buraco negro, atraindo para si todo o lixo cósmico.

Nos dois casos, não se forma uma estrela. O pai fracassa em sua missão de perpetuar o brilho. Se o motivo é ego dominante ou excesso de zelo, não importa. A superproteção constitui um crime, pois limita o filho e o impede de viver em sua plenitude.
Um pai não tem o direito de reduzir a capacidade do próprio filho. Ser um bom pai também é deixar que o filho erre e caia algumas vezes no caminho. Faz parte do aprendizado.

A hora certa de brilhar

Existe o momento certo para o filho-estrela conquistar sua independência. Cedo ou tarde demais não funciona. É o mesmo que deixar que o filho chegue aos trinta anos sem nunca ter saído de casa.

Por isso, o verdadeiro pai-líder sabe a hora certa de se sair de cena, para que o filho faça uma grande diferença na escuridão. Em algum momento da vida, ele incentiva que o filho-estrela comece a brilhar por conta própria, porém mantém os olhos bem atentos para acompanhar esse desenvolvimento.

O pai-líder aprende a controlar o próprio ciúme e insegurança, para ver o filho começar. Se não faz isso, afasta o filho e perde o controle da situação.

O pai-líder orienta, dá o empurrão inicial e fica na torcida, até que o filho produza a primeira faísca. Daí, qualquer clarão é motivo para o filho-estrela acreditar que pode mudar o universo. E ele não poupa esforços para expandir sua luz, indefinidamente.

Um verdadeiro pai-líder é o oposto do centralizador. Ele incentiva e coloca os filhos em evidência, para que desenvolvam o seu melhor.

O pai-líder está sempre ao lado do filho durante a sua estréia. Sua postura não é de cobrança, mas de incentivo. O filho-estrela sente mais confiança se é abraçado antes de entrar em cena. É um momento especial em sua vida. É papel do pai estar lá, junto, torcendo e apoiando em qualquer circunstância.

Se algo dá errado, o pai-líder assume o comando. Entretanto, quando isso acontece, ele não deixa que isso afete a auto-estima do seu filho. Ele faz a nova estrela acreditar que qualquer experiência é válida e que está orgulhoso de sua coragem. O pai-líder conta que é comum errar no início e enfatiza a prática como a solução de todos os problemas.

O papel do pai é aplaudir sempre, para motivar o filho a ensaiar sua luz. Quando as coisas não saem conforme o esperado, as críticas são sempre construtivas e um grande valor é associado à experiência.

Se está preocupado e sente um aperto no coração durante a estréia do filho, o pai-líder não demonstra. É preciso incentivar e deixar o filho confiante, para que faça o seu melhor.

Ao delegar responsabilidades, o pai-líder comemora os resultados sempre, mesmo quando são ruins. O que importa é a confiança, a prática e o aprendizado, pois os resultados esperados virão na hora certa, se o filho-estrela não desanimar.

O pai-líder não tem pressa. Ele repete as instruções quantas vezes necessário, sem demonstrar impaciência. Essa atenção é tudo o que o filho precisa para se desenvolver.

Dentro da sua equipe, é a mesma coisa. Para liderar de verdade, é preciso sair do foco. Não importa se os outros erram, se estiverem se empenhando e aprendendo. Delegar responsabilidades é um processo que leva algum tempo. Há um estágio de preparação em que o erro é tão importante quanto o acerto.

Quando se forma uma estrela?

Um pai-líder prepara uma nova estrela desde o primeiro instante da gestação. Não importa está ou não pronto para brilhar: já é filho. A primeira impressão é a que fica. Se o pai-líder não tem a postura correta no início, nunca mais a relação será a mesma. A formação de uma estrela se faz nos detalhes do cotidiano.

O pai-líder irradia energia positiva. Ele nutre o solo e rega as sementes, para incentivar e orientar o aprendizado do filho. Nessa fase, o seu papel principal é conversar muito e contar histórias inspiradoras. É a melhor forma de ensinar e mantê-lo por perto, evitando que busque atalhos e desanime diante das adversidades.

O pai-líder é duro quando necessário e não aceita desculpas. Ele sabe dizer "não" na hora certa e não negocia valores. Atender todos os caprichos do filho não é amar. O pai-líder estabelece limites para que o filho siga no caminho certo até a fase em que aprende a brilhar. Ele oferece conhecimento e incentivos para o filho descobrir sua vocação e ensaiar a própria luz. Essa é a função do pai-líder.

A postura de pai-líder também significa comprometer-se com uma nova vida. É deixar de ser estrela quando se torna pai. A prioridade muda.

O pai-líder assume para si todas as responsabilidades e prepara-se para servir de pára-raios. É melhor que seu filho venha contar a ele seus problemas do que para os outros. É seu papel de pai absorver os impactos e traduzir o negativo em positivo.

A partir do momento em que inicia a formação de uma nova estrela, o pai-líder tem o compromisso de apoiá-la e incentivá-la a ser melhor que ele próprio. Ele investe o melhor do seu tempo durante o treinamento do seu filho e sente um grande orgulho quando este começa a brilhar. Além de garantir a evolução da espécie, ele se realiza.

Por isso, não pode haver concorrência na mesma linhagem. Avô, pai, filho e neto cooperam entre si e protegem um patrimônio comum, que é a carga genética da família.

O pai-líder é positivo, divertido e contagia os outros. Todos querem estar com pessoas prósperas, entusiasmadas e vencedoras.

Para crescer com solidez, o pai-líder elimina toda e qualquer forma de preconceitos. Ele têm filhos diferentes entre si. Para liderar um grupo heterogêneo, é preciso valorizar a diversidade e respeitar as características de cada um.

O pai-líder potencializa o que o outro tem de bom, ao invés de reclamar. Alguns valores são inegociáveis. Portanto, o pai-líder aprende a aceitá-los sem misturar as coisas. Da mesma maneira, evita impor ao outro as suas crenças religiosas, políticas e culturais, para não causar constrangimento em quem compartilha de valores diferentes. O pai-líder é sociável.

Se nota que alguém tem deficiências na hora de exercer alguma função importante no negócio, o pai-líder ensina. Todos estão em constante evolução e aprendem ao longo do tempo, mas não existe perfeição. O pai-líder olha-se no espelho antes de julgar o outro.

A disputa entre filhos adolescentes é muito comum, pela conquista de território e a atenção dos pais. Por isso, o pai-líder aprende a administrar esses pequenos conflitos desde cedo, mantendo-se neutro. Se vai repreender um deles, o faz genericamente, repreendendo os dois. Isso é importante para manter a paz a longo prazo.

O pai-líder valoriza a ética, o respeito e amizade entre os filhos, criando um ambiente socialmente agradável e próspero. Quanto maior é a integração da sua família, mais motivada e comprometida ela está.

O pai-líder é, antes de tudo, um grande exemplo de atitude. Ele honra essa condição de destaque, pois os filhos estão copiando o que ele faz. Ele deixa de pensar individualmente e começa a se preocupar com a família que criou.

O pai-líder pensa coletivamente e compreende a responsabilidade que tem.


Por
Sérigo Buaiz

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