04/03/2009

O vendedor de shampoo

por Rogério Verinaud

Vinte anos haviam se passado e a rotina não mudara. O trabalho porta-a-porta era divertido e compensador, mas o Sr. Estevão não possuía mais o mesmo pique da juventude e o entusiasmo também parecia estar perdendo seu vigor. E como se não bastasse, tinha contraído algumas dívidas que lhe tiravam o sono, comprometendo mais ainda sua reconhecida performance de exímio vendedor.

Seu produto era de boa qualidade, essa segurança ele tinha. Seus clientes se mantinham satisfeitos, reclamação não havia. Shampoo é um produto que tem boa saída e isto ele já estava careca de saber. A única coisa que "pegava" de fato era que o tempo havia passado mais rápido do que ele esperava. Tinha conquistado um modesto patrimônio como fruto de seus esforços, mas no fundo sabia que os recolhimentos efetuados ao INSS no decorrer de todo esse tempo não iriam representar lá grande coisa quando se aposentasse, ou seja, seu padrão de vida perigava cair. E o pior é que este dia estava se aproximando.

Tinha um círculo de relacionamento fenomenal. Uma carteira de clientes realmente muito extensa. Viajava muito e, além de centenas de clientes espalhados por muitas cidades de uma vasta região, tinha muitas amizades sólidas que surgiram a partir desses contatos comerciais. Um verdadeiro tesouro chamado networking, sem ele saber.

Sabia que precisava fazer alguma coisa, e rápido, para não padecer no mais depressivo dos lugarejos, o temível "V.A.D." (Vale dos Aposentados Desafortunados). Tinha que buscar algo que permitisse diversificar sua renda ou, melhor ainda, assegurar sua estabilidade financeira. Mas o quê?...Onde? Olhava ao redor e nada parecia lhe acenar, mesmo que remotamente, como uma solução, uma minguada resposta ao seu dilema.

Certo dia, em uma de suas visitas de rotina a salões de beleza, para abastecer com seu produto, comentou de suas dificuldades com o cabeleireiro Lino, proprietário do salão. E, como se a fada madrinha tivesse ouvido seus lamentos, foi agraciado com a mais inesperada das oportunidades que, segundo seu portador, poderia realmente vir de encontro as suas necessidades. Era simplesmente perfeito! Bom demais para ser verdade. Instantaneamente ocorreu- lhe aquele "chavão" de um conhecido comercial de cerveja: "SERÁ?!..."

Lino acabara de se cadastrar numa empresa de Marketing de Rede no segmento de perfumes e cosméticos e, em curto espaço de tempo, já estava obtendo excelentes resultados. Só para se ter uma idéia, em três dias já havia vendido mais de R$ 800,00 apenas dentro do salão, lucrando com isso mais de R$ 500,00 líquidos. Nada mal para apenas três dias de trabalho, considerando que esses ganhos eram apenas frutos de suas vendas diretas (pessoais), pois ainda não havia iniciado o desenvolvimento da sua rede.

Lino explicou em detalhes para o Sr. Estevão todo o plano de marketing, as vantagens e o potencial do negócio. Lembrou ao Sr. Estevão que, pelo fato de viajar muito e contactar muitas pessoas, levava uma grande vantagem sobre ele, pois poderia desenvolver uma grande rede num espaço de tempo relativamente curto, sem que isso atrapalhasse a sua atividade atual. Já o Lino, por ter uma rotina sedentária, abordando apenas as pessoas que passavam pelo salão, cresceria também, mas num ritmo menos acelerado. Simplesmente o Sr. Estevão estava com a "faca e o queijo na mão".

O Sr. Estevão achou tudo lindo e maravilhoso. Bom demais para ser verdade! Não entrava em sua cabeça como que as vendas de outras pessoas poderiam lhe beneficiar. Como poderiam, vendedores dos mesmos produtos que ele, não serem seus concorrentes, e sim seus aliados? Era simplesmente absurda e inconcebível a proposta que seu amigo Lino lhe apresentara. No fundo, sentiu até uma pontinha de pena dele por suspeitar que o amigo entrara numa furada, num daqueles esquemas de correntes e pirâmides que o amigo do cunhado do tio de seu ex-vizinho havia se "ferrado", certa vez. Nunca soube direito da história, mas tinha características semelhantes.

Infelizmente, o Sr. Estevão não conseguiu absorver a essência do autêntico Marketing Multinível de uma empresa sólida e idônea, apesar de ter levado para analisar todo o material de apoio da empresa que o Lino lhe emprestou. Quando retornou, após 15 dias de viagem, devolveu, sem ao menos folheá-lo, nem sequer entrou no site da empresa, que o Lino tanto recomendou. Por fim, apenas agradeceu a gentileza da tentativa de ajuda por parte do velho amigo e descartou a possibilidade de ingressar no negócio. Não entendeu, não quis tentar entender e, por falta de informações, não se interessou, ignorando assim, a maior oportunidade da sua vida.

Sinceramente, espero que um dia o conceito do MMN possa produzir na cabeça do Sr. Estevão um efeito bem menos superficial que o shampoo que ele distribui, para que ele possa se aposentar dignamente, com uma renda bem mais significativa que a do INSS.




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